Seja luz!

Em uma loja de decoração de luxo havia uma sessão de velas. Lá existiam velas de todas as cores, formatos e tamanhos, decoradas e mais simples, sem cheiro e com os mais variados aromas que agradariam qualquer pessoa.  Não havia como alguém interessado em uma vela decorada, sair daquela loja sem levar uma mercadoria. Tinha produtos para todos os gostos.

         Dentre as velas, encontrava-se uma de beleza exuberante, um colorido intenso e suave fragrância de alecrim. Era um lindo produto e sabia de suas qualidades, porém, não se permitia ser comprada. Imaginava-se sendo queimada e, em poucos minutos, transformando-se num monte de cera sem cheiro, sem cor, sem utilidade alguma. Foi passando o tempo e a bela vela ia ficando na prateleira, empoeirada, suja. perdeu a intensidade da cor e já não exalava aquela fragrância suave que outrora agradava a todos. Não brilhava mais. Não chamava mais atenção aos olhares criteriosos que buscavam a mercadoria perfeita. Começou a ficar triste pois agora não era mais desejada. Sua beleza não era mais suficiente para que alguém a comprasse. E este agora, tornara-se o seu maior desejo. Fora acometida por profunda tristeza e adormeceu. Passado um tempo, não se sabe quanto, uma suave mão a tirou da prateleira. Uma ponta de esperança e euforia invadiu o coração da bela vela. Fez um passeio por toda a loja e percebeu que aquelas delicadas mãos apenas a carregavam. Começou a pensar: “-Esse é o meu fim. Serei jogada na lata de lixo em meio a restos que não servem mais para nada. De qualquer jeito, é melhor sair dessa situação que estou vivendo. A minha vida não tem mais graça nem cor”.

         Para sua surpresa, foi colocada no fundo de uma gaveta bagunçada, escura, úmida. Sentiu-se desprezada, isolada. “Oh, como me arrependo de não ter me permitido outros lugares, outras oportunidades. Quem sabe eu não estaria enfeitando uma linda mesa de granito em alguma residência requisitada e luxuosa, harmonizando os mais movimentados jantares de negócios ou até mesmo românticos, ao invés de estar aqui, feia, suja e sozinha. A culpa é toda minha. Pensou.”

         Passados longos e intermináveis dias, ouviu um tulmuto na loja. Mesmo a distância, ouvia gritos de desespero. As vozes foram ficando mais próximas e a gaveta se abriu. Mãos suaves, porém ansiosas, tatearam a gaveta até encontrar a vela. Faltara luz na loja e as pequenas gêmeas, filhas da proprietária, ficaram presas no depósito cheio de mercadorias de vidro, escuro, apertado e perigoso, além da pouca ventilação.

         A mulher segurou a vela com vigor e disse: “-Cumpra sua missão. Seja lu!”.

         Em meio a escuridão, eis que surge a luz. Intensa, forte, renovadora. E onde antes não existia solução, fez-se o necessário para se encontrar a chave reserva que abriu a porta do depósito e trouxe as crianças chorosas e assustadas aos braços da mãe.

         Hoje é aniversário de 15 anos das gêmeas. Uma luxuosa festa foi preparada. As meninas entraram em seus encantadores vestidos. Eram duas princesas. Em suas delicadas mãos, encontrava-se uma vela. Desbotada, sem perfume mas em grande destaque e uma importante missão: ser luz!

 

 

Michelle Nunes. 

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